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Primeiro caso mundial de trigêmeos após transplante de útero em São Paulo é confirmado pelo Hospital das Clínicas da FMUSP

Brasil consolida liderança com transplante de útero de doadora viva, gestação rara acompanhada por equipe multidisciplinar e alta hospitalar dos bebês

Em São Paulo, a equipe do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a FMUSP, confirmou o nascimento de trigêmeos gestados em um útero transplantado, um resultado que coloca o Brasil no centro da medicina reprodutiva. Segundo a instituição, "O caso, registrado em agosto, representa a primeira ocorrência global deste tipo e destaca-se também por ser o primeiro transplante com doadora viva realizado na América Latina."

A paciente tem síndrome de Rokitansky, condição rara que impede a formação do útero. Como descreve o comunicado, trata-se de "condição que afeta aproximadamente uma em cada quatro mil mulheres, impedindo o desenvolvimento do útero". Inicialmente inscrita em um programa de doação post-mortem, ela acabou se beneficiando de um projeto que viabilizou a doação por doadora viva, no caso sua irmã, que já havia tido dois partos normais e decidiu oferecer o útero para possibilitar a gravidez.

O transplante de útero foi acompanhado por uma equipe multidisciplinar de obstetrícia, transplantes e reprodução humana do Hospital das Clínicas, com monitoramento intensivo do pré ao pós-operatório. A complexidade do procedimento, aliada à natureza de alto risco da gestação em útero transplantado, exigiu protocolos de segurança, consultas frequentes e exames seriados.

Como a cirurgia e a gestação foram viabilizadas

Antes da transferência embrionária, os especialistas avaliaram cuidadosamente o estado clínico da receptora, ajustando medicações imunossupressoras e parâmetros hormonais. A FMUSP relata que "A transferência de um único embrião foi realizada no final de janeiro, visando evitar uma gestação gemelar." A escolha por apenas um embrião é a conduta recomendada para reduzir riscos em transplante de útero, especialmente no contexto de uma cirurgia recente.

O que ninguém esperava era o desfecho biológico extremamente raro. De acordo com o hospital, "Surpreendentemente, o embrião dividiu-se não uma, mas duas vezes, resultando em uma gravidez trigemelar, um evento com uma probabilidade estimada em apenas 0,04%." Trata-se de uma divisão espontânea do embrião, fenômeno que pode ocorrer em gestações naturais ou por fertilização in vitro, porém é excepcional em um útero transplantado.

Acompanhamento intensivo e parto

Durante toda a gravidez, o acompanhamento clínico foi reforçado, com foco na prevenção de intercorrências comuns em gestações múltiplas, como prematuridade e restrição de crescimento. A raridade da gestação trigemelar, associada ao transplante de útero, levou a instituição a integrar especialistas de diferentes áreas para decisões compartilhadas a cada etapa.

O desfecho obstétrico, embora prematuro, foi considerado bem-sucedido. Conforme informado, "O parto dos trigêmeos ocorreu prematuramente, aos sete meses de gestação." Após suporte neonatal e evolução clínica favorável, os três bebês deixaram o hospital, e a nota reforça que "Os bebês receberam alta hospitalar e apresentam desenvolvimento normal."

Impacto para a medicina reprodutiva no Brasil e no mundo

O anúncio reforça o protagonismo brasileiro em transplante de útero, inclusive com doadora viva, algo ainda restrito a poucos centros no mundo. A validação clínica deste caso histórico amplia a confiança na técnica e incentiva a expansão responsável de programas especializados, consolidando o país como referência mundial na área.

Outro aspecto relevante do estudo é a utilização de embriões congelados há muitos anos. Em nota, os médicos destacam que "A equipe médica ressalta ainda a viabilidade de embriões congelados por longos períodos, uma vez que os utilizados no procedimento estavam armazenados desde 2014." A constatação tem impacto direto em estratégias de preservação da fertilidade e planejamento reprodutivo de longo prazo.

Para mulheres com fator uterino absoluto, como aquelas com síndrome de Rokitansky, o transplante de útero surge como alternativa de alto custo e alta complexidade, ainda indicada em centros de pesquisa e hospitais de excelência. A experiência da FMUSP deve guiar novos protocolos, desde a seleção de candidatas até o acompanhamento perinatal, além de alimentar debates éticos, clínicos e de acesso.

Os próximos passos incluem o seguimento de longo prazo da mãe e dos bebês, a avaliação da função do enxerto e o estudo de desfechos reprodutivos em futuras tentativas. A expectativa é que os dados gerados em São Paulo apoiem redes colaborativas, estimulem a formação de profissionais e fortaleçam a segurança do paciente em cada etapa, desde a captação do órgão até o parto.

Com evidências sólidas e resultados tangíveis, este primeiro caso mundial de trigêmeos após transplante de útero coloca em perspectiva o alcance da ciência brasileira e abre uma nova frente de esperança para famílias que sonham com a gestação, sempre com informação de qualidade, critérios rigorosos e cuidados centrados na paciente.

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