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Documentário Nas Lascas do Jatobá resgata memórias de idosos negros e ilumina a história oral de Cosmópolis

O documentário Nas Lascas do Jatobá estreia no cinema de Cosmópolis, reúne relatos de moradores com mais de 55 anos e, sob direção de Ton Filizatti, transforma vivências em retrato coletivo com circulação em escolas e festivais

O cinema de Cosmópolis recebeu no domingo, 14 de dezembro, a estreia do documentário Nas Lascas do Jatobá, curta-metragem do Grupo Tonel que registra as memórias de pessoas negras com mais de 55 anos que vivem no município. A produção transforma experiências individuais em um retrato coletivo da história local, valorizando a história oral e a memória de quem ajudou a construir a cidade, na Região Metropolitana de Campinas.

Dirigido por Ton Filizatti, que também assina a coordenação geral do projeto, o documentário Nas Lascas do Jatobá nasce de uma inquietação pessoal e acadêmica do realizador, interessada em compreender a potência das próprias vivências enquanto homem negro periférico. O diretor levou essa reflexão para a tela e incluiu seu pai, de 76 anos, entre os entrevistados, reforçando a importância da tradição oral e da transmissão de histórias na construção de identidades e pertencimentos.

Vozes que constroem a história local

Antes do recorte final, a equipe realizou um amplo processo de escuta, visitando nove núcleos familiares e convivendo com as comunidades em encontros informais e trocas do cotidiano. A partir dessa aproximação, quatro trajetórias foram selecionadas para compor o filme, com personagens que condensam afetos, memórias e marcos da cidade: Dona Rose, Seu Manoel, Seu Zelão e Dona Udy. A lógica foi abrir espaço para que os próprios moradores conduzissem a narrativa, com liberdade para contar o que viveram e o que aprenderam, consolidando um mosaico de lembranças que dialoga com o presente.

Segundo a equipe, a proposta foi incentivar a audiência a ouvir sem pressa, em um gesto de respeito e atenção às pessoas mais velhas, que carregam saberes muitas vezes invisibilizados no debate público. A assistente de direção, Ana Beatriz Pereira, destacou que o filme reúne trajetórias diversas, contemplando quem migrou para Cosmópolis em diferentes períodos e quem nasceu e trabalhou na cidade ao longo de toda a vida, compondo um quadro abrangente da formação social do município.

Raça, idade e migração como eixos da narrativa

O documentário Nas Lascas do Jatobá organiza sua narrativa a partir de três eixos centrais, raça, idade e migração, evidenciando como marcas históricas, sociais e econômicas atravessam gerações. O projeto parte do reconhecimento de que as consequências do período de escravização seguem presentes na vida das famílias negras, mesmo quando a memória jurídica do passado parece distante. De acordo com o levantamento realizado para o filme, há, entre os entrevistados e seus antepassados, um intervalo de apenas duas gerações em relação a pessoas que viveram a escravidão, um dado que ajuda a dimensionar a proximidade temporal dessas experiências e seus efeitos no cotidiano.

Ao privilegiar os relatos em primeira pessoa, a obra reforça o caráter pedagógico e social da história oral, aproximando o público de memórias que, muitas vezes, não estão registradas em documentos oficiais. Essa abordagem também reposiciona os personagens como protagonistas da própria história, contrapondo estigmas e ampliando o repertório de referências da cidade.

Circulação em escolas, ações formativas e festivais

Para além da sessão de estreia, o documentário Nas Lascas do Jatobá deve circular por ações formativas, escolas e festivais, expandindo o alcance do debate em torno de identidade, memória coletiva e direito à cidade. A estratégia de difusão busca estimular o uso do filme como material de apoio em atividades pedagógicas, rodas de conversa e eventos culturais, incentivando que jovens e adultos se reconheçam nas histórias contadas e se conectem com o território.

Como destaca a reportagem, “Nas Lascas do Jatobá” é também uma ferramenta de debate social e construção de novos imaginários. A descrição sintetiza a vocação do projeto para provocar reflexão, ao mesmo tempo em que reforça o lugar da arte como instrumento de escuta, cura e mobilização.

No recorte proposto pelo Grupo Tonel, o tempo presente é atravessado por lembranças que ajudam a entender processos de racismo estrutural, desigualdade e políticas de migração ao longo de décadas. Esse diálogo entre passado e presente ganha força ao ser encenado por quem viveu o cotidiano da cidade, em diferentes bairros, ofícios e dinâmicas comunitárias, compondo um material sensível e potente para docentes, pesquisadores, gestores culturais e o público geral.

Ao se apoiar em relatos íntimos e em uma escuta atenta, o documentário Nas Lascas do Jatobá reafirma o papel da cultura como caminho para o reconhecimento e a reparação simbólica. A memória, quando partilhada, fortalece laços, preserva trajetórias e projeta novos imaginários para as próximas gerações, em Cosmópolis e além.

Com a estreia no cinema de Cosmópolis e a agenda de circulação prevista, a obra se posiciona como um convite ao encontro, à conversa e ao aprendizado coletivo. Em cada depoimento, o público encontra uma chave para revisitar o passado, compreender o presente e imaginar futuros mais justos, uma contribuição que confirma a relevância do documentário Nas Lascas do Jatobá no circuito cultural e educacional do país.

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