Em entrevista à TV TODODIA, ex-secretária de Educação de Nova Odessa defende educação antirracista contínua, integrada a famílias e comunidade, com foco em respeito, diversidade e identidade racial
A TV TODODIA encerrou a semana dedicada à Consciência Negra com uma conversa ao vivo com a educadora Claudicir Picolo, referência em diversidade, antirracismo e formação de professores. Ex-secretária de Educação de Nova Odessa, ela defendeu que a educação antirracista deve ser prática permanente nas redes de ensino, não apenas um tema de novembro, e que precisa ser construída em parceria com famílias e com a sociedade.
Para a especialista, a escola tem papel central na promoção do respeito, mas só alcança impacto duradouro quando dialoga com o território, com as casas e com as diferentes instâncias sociais. A entrevista, conduzida ao vivo pela TV TODODIA, reuniu recomendações que, segundo Claudicir, ajudam gestores, docentes e famílias a transformar o cotidiano escolar em um espaço verdadeiramente inclusivo, com educação antirracista transversal e contínua.
Não basta não ser racista, é preciso agir
Claudicir foi direta ao diferenciar postura e prática, reforçando que a omissão perpetua desigualdades. “Não ser racista é muito fácil. Mas ter enfrentamento de atitudes e comportamentos antirracistas ainda é bastante tênue na nossa sociedade”, afirmou. Para ela, a educação antirracista se materializa quando a escola intervém de maneira pedagógica, consistente e cotidiana, em especial diante de situações de discriminação e bullying.
A educadora lembrou que crianças não nascem racistas, elas são impactadas pelo comportamento dos adultos e pelos contextos de convivência. Nesse sentido, a responsabilidade da escola é contínua, tanto no trabalho com os estudantes quanto na formação das equipes. “É fundamental não permitir atitudes que discriminem ou humilhem. A escola deve estar sempre à frente, orientando crianças e profissionais.”
Para que essa atuação seja efetiva, Claudicir defende ações planejadas, alinhadas ao projeto pedagógico e alimentadas por práticas concretas. A educação antirracista aparece na escolha de materiais didáticos, no repertório de livros, filmes e textos, na abordagem de história e cultura afro-brasileira, e na criação de um ambiente em que estudantes e educadores reconheçam, nomeiem e enfrentem o racismo de forma segura e responsável.
Tripé entre escola, família e sociedade
A educadora enfatizou que combater o racismo exige unidade de propósitos. “Eu imagino que é um tripé, família, sociedade e educação. As três precisam convergir para formar cidadãos que respeitem e valorizem todas as etnias, raças, cores, religiões e tons de pele.” Projetos escolares, segundo ela, precisam alcançar também as famílias e a comunidade, o que dá capilaridade às ações e fortalece a continuidade do aprendizado fora da sala de aula.
Claudicir destacou que o Brasil carrega uma herança histórica que ainda produz efeitos no presente, o que exige persistência e estratégia. “Nós viemos de mais de 500 anos de um povo escravizado e visto como subserviente. A recuperação histórica é lenta e exige muito trabalho pedagógico.” Nesse processo, a educação antirracista busca reconstruir narrativas, valorizar trajetórias e promover representatividade em todos os espaços de aprendizagem.
Ela explicou que debates sobre identidade racial e diversidade podem e devem ser incorporados em atividades cotidianas, sempre com base no conhecimento histórico. “Quando explicamos a origem do cabelo, da pele, da boca, a partir da história dos povos negros, a discriminação vai perdendo força e dá lugar à valorização da etnia.” Ao envolver famílias, conselhos escolares e redes de apoio do território, a escola amplia o alcance da educação antirracista e fortalece o enfrentamento ao racismo estrutural.
Representatividade, identidade e o papel das crianças
Na avaliação de Claudicir, as crianças demonstram grande abertura para aprender e transformar comportamentos, o que torna a escola um espaço privilegiado para mudar o futuro. “Nós, adultos, temos mais dificuldade de mudar. Já acumulamos pré-conceitos e experiências ruins. As crianças não. Elas aprendem, transformam e levam isso para a vida.” Por isso, ela defende que as práticas de educação antirracista comecem cedo, com mediação cuidadosa e linguagem acessível.
A educadora ressaltou ainda que o reconhecimento da própria identidade segue como desafio no país, reflexo de lacunas históricas de ensino e de representações limitadas no currículo, nos livros e nas mídias. Nesse sentido, é decisivo apresentar referências positivas e contemporâneas, ampliando o repertório de profissões e trajetórias. “Quando nós tiramos o negro do contexto da escravidão e trazemos para o século XXI, ele sendo médico, dentista, banqueiro, nós o realocamos na sociedade no seu papel correto”, afirmou.
Além da população negra, Claudicir reforçou a importância de reconhecer os povos originários e suas contribuições, conectando história e presente e fortalecendo a representatividade de diferentes grupos no cotidiano escolar. Para ela, a educação antirracista precisa ser visível nos murais, nas leituras, nos projetos e nas conversas, estimulando o respeito, a empatia e a convivência com a diferença.
Ao final, a mensagem é de compromisso contínuo. Mais do que campanhas pontuais da Consciência Negra, Claudicir defende um percurso formativo que atravessa todo o ano letivo, com participação ativa de famílias e comunidade. Com educação antirracista integrada a políticas, práticas e conteúdos, a escola se prepara para enfrentar o racismo, promover inclusão e formar cidadãos que valorizem a diversidade em todas as suas dimensões.
A entrevista foi realizada ao vivo pela TV TODODIA, reforçando a relevância do tema para a RMC e para o Brasil, e consolidando o papel da imprensa e da educação na construção de um país mais justo e plural.